"Fugimos do abismo da vida, e fugimos da vida - embora tal seja uma autentica estupidez. Se fugimos da vida, caminhamos para o abismo; se fugimos do abismo, abraçamos o calor frio da vida. E talvez porque somos humanos, voltamos novamente a perder o comboio, e novamente, e novamente - e assim continuamos, e assim caímos, e assim caem connosco. Perdemos quem amamos, perdemos quem odiamos [ódio este que somente demonstra que tais pessoas fazem parte do nosso espelho de vida].
Perdemo-nos - oh, como o comboio já lá vai!" - J. A.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

V

Gira o Sol e gira a Lua,
Gira o tempo, gira a rua,
Gira a chuva no colo do vento,
Canta a luz, num sopro lento,
Mais o dia que foge (pois não!),
Formigam as folhas, falha-nos o chão,
E a lua que brilha, já surge no brocado negro,
E as vozes que se elevam, num canto bento.
De joelhos, rasgados, no chão, de mãos ao alto,
Dobra o sino num relâmpago,
Trovão que se vê e abre o chão.
Eis a campa, ponde-a lá,
Enterrai a soberba, que já não nos vale cá,
Triste notícia, morte adiada,
Da alma portuguesa já derrocada.
Atire-se ao fosso, na noite escura,
Dom Sebastião e as naus que do fundo
Mar vêm, assombrar a noite defunta.
Vê o cego o trovão e grita o mudo,
Que morra Portugal se não tem outro mundo.
Do outro lado do mar há uma ilha,
Onde se trava uma guerra infinda,
Onde as almas vivas lutam,
Onde se encerra o Novo (velho) Império.
Que partam as naus da mente, novamente,
Para essa terra para lá da fronteira do fundo
Que toda a alma nossa para lá migre e lute pela terra amada
Onde o sonho não ultrapassa
O fogo da alma, em paixão,
Onde, quando vencedores, teremos o mundo na mão.
Lutemos, agora, enquanto é tempo,
E, se não Deus, o Além virá.
Ergamo-nos, num clamor, de novo
Povo sem comandante, com homem do leme, imortal e morto.
Voltear de espada ao céu onde se vê o trovão
Que fará tremer os alicerces da terra.
Morreu Sebastião. Que venha o novo mundo!

1 comentário:

hebe disse...

eu vi este poema, juro que consegui vê-lo. visioná-lo, como se de uma projecção rápida se tratasse. Este tem qualquer coisa a mais.