"Fugimos do abismo da vida, e fugimos da vida - embora tal seja uma autentica estupidez. Se fugimos da vida, caminhamos para o abismo; se fugimos do abismo, abraçamos o calor frio da vida. E talvez porque somos humanos, voltamos novamente a perder o comboio, e novamente, e novamente - e assim continuamos, e assim caímos, e assim caem connosco. Perdemos quem amamos, perdemos quem odiamos [ódio este que somente demonstra que tais pessoas fazem parte do nosso espelho de vida].
Perdemo-nos - oh, como o comboio já lá vai!" - J. A.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Falta de Tempo

Não tenho tido tempo: nem tempo para "postar" nem tempo para escrever. O tempo escasseia-me e até era engraçado se agora tivesse alguma coisa catita a falar sobre a falta de tempo; mas não tenho e portanto meto só um "texto experimental" (fantástico nome pomposo) fruto de um pseudo-desafio. Ah e não, não sou um assassino tresloucado com rituais obsessivos, é apenas invenção!

Acariciei-te a cara, uma e outra vez. As tuas mãos moviam-se lentamente nas minhas costas, em busca de algo que provavelmente nem sabias o que era. Com as minhas mãos, suavemente, delineei-te as costas, agarrei-te, puxei-te contra mim, como se não te quisesse voltar a largar. Beijei-te, beijámo-nos, uma e outra vez, e uma vez mais. Afaguei-te os cabelos, seda fluida como se de um rio se tratasse, brilhantes, castanhos-escuros, morenos como tu…fi-los passar por trás da tua orelha e mordi-te a orelha, se é que se pode chamar àquilo morder. Sentia o teu calmo e quente expirar no meu pescoço, mais rápido, e mais rápido. Beijei-te o pescoço, uma e outra vez e dei-lhe a volta, sempre sem parar…subi-te ao queixo e mais uma vez te procurei os lábios e novamente te passei a mão pelo cabelo; senti-o cair da minha mão, deslizando de volta ao início…e quando te voltei a beijar no queixo e arqueaste a cabeça para trás, eu vi que era o momento. Saboreava-o já, sentia-o antecipadamente, a adrenalina corria-me nas veias e a excitação estava num máximo…
- Amo-te. – murmurei – amo-te…
Rapidamente baixei a mão ao bolso de trás das calças e ainda mais rapidamente encontrei o que procurava: o meu pequeno punhal de prata. Agarrei-o firmemente, num gesto que já de si não me era novo, e fiz subir as costas da mão pelas tuas costas lentamente…beijei-te, num beijo longo e apaixonado, maior, mais poderoso que todos…queria manter-te e sentir-te e, de certo modo, impedir a tua partida…mordi-te o lábio. Beijei-te. Mordeste-me o lábio com tanta força que me puseste a sangrar. Beijei-te novamente, naquela que já sabia ia ser a última vez. Trouxe o punhal até ao teu pescoço bronzeado e espetei-o, sem hesitação alguma. O sangue vermelho-escuro e quente espirrou e banhou-me; escorreu-me pelos braços e beijei-te no jorro de sangue e misturei-o com o sangue que vertia do meu lábio, e enquanto te sentia a esvaíres-te em minhas mãos e a lentamente seres chamada de encontro ao véu de negro brocado da morte disse-te apenas um pequeno e singelo “Amo-te” e fixei o teu olhar incrédulo dos teus olhos amendoados, nem verdes nem castanhos, a fitar-me com ar ainda de surpresa, ainda de amar. Guardei a faca, limpei-te de quaisquer vestígios meus, limpei-te onde te havia beijado, de termos dado as mãos, troquei-te a roupa e levei-a comigo, tudo para que, quando te encontrassem a ti morta no chão fofo da carpete escarlate não me encontrassem a mim a saborear cada pormenor de ti. Sabias bem, foi pena. Mas sensação nenhuma é melhor do que ter a vida e o sangue de alguém nas mãos e sentir o corpo de outrem a perder o seu calor…sim, amava-te. Mas foi para te eternizar que te matei. Rodeei-te de pétalas de rosa, num tom semelhante ao do teu sangue, sangue que tingia a carpete…acendi uma vela e voltei a pôr o gira-discos a tocar uma qualquer balada; apaguei a luz e fixei-te, estendida no chão, deitada como se num sono profundo, que até poderia ser sono profundo se não fosse pela ferida no pescoço. Guardei-te na alma e no coração: amei-te. Quem disse que não se podia verdadeiramente amar mais que uma vez?

5 comentários:

João Apura disse...

WOW!
Simplesmente magnífico! =D
Adorei mesmo... Até estou sem palavras!!

Cumprimentos,
João Apura

Alice disse...

Fantastic Darling.
Em nome da população mundial e dos leitores do teu blog venho felicitar-te por seres um gajo que responde a pseudo-desafios. Se sairem sempre perolas como esta, como ja te disse, estás a meio passo de cheirar a imortalidade. Beijos!

Gonçalo disse...

Esperemos que, caso isso um dia aconteça (o que duvido), que a imortalidade não cheire muito mal...Tenho o nariz muito sensível ahah beijos

Margarida Martins disse...

Sabes bem que adorei! Está o máximo :)

Mafalda disse...

ADOREI